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outubro 29, 2006
aparências
Os que são exteriormente inteligentes,revelam-se interiormente invejosos. Eis o caso.
Publicado por j.m às outubro 29, 2006 05:22 PM
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Os invejosos
Inveja foi a palavra que Camões escolheu para terminar Os Lusíadas. Serão os portugueses invejosos? Sem dúvida. E temos deles vários géneros. O mais perigoso de todos é o invejoso subtil. Com o invejoso subtil tudo pode acontecer, distinguindo-se dos outros pela imprevisibilidade dos seus processos. Faz-se passar por amigo, colega, camarada, mas, no fundo, o que o motiva é uma inveja destrutiva. Gosta de abraçar e de dar umas palmadinhas nas costas de vez em quando. O invejoso subtil aprecia o elogio fácil, que é apenas uma dissimulação da sua perfídia. É um verdadeiro aplicado no elogio das virtudes alheias. Porém, quando menos se espera e, amiúde, a quem menos o espera, ele ataca impiedosamente: denegrindo, atraiçoando, difamando, desacreditando, enfim, fazendo tudo o que lhe seja possível para se vingar da sua inaceitável cobardia e dissimulada inaptidão. Há ainda o invejoso inconformado. É aquele que não se conformando com o que lhe calhou em sorte, inveja a fortuna dos outros. Inveja, principalmente, os indivíduos que não necessitam de bater a portas para que elas se lhes abram. Este invejoso, normalmente, é um lutador, um pobre utópico que passa a vida a remar contra a maré. Facilmente se torna indigente e rancoroso, sendo quase sempre um arrivista da pior espécie. Quando atinge os seus objectivos, quase sempre na velhice, toca de abater o trabalho daqueles que toda a vida invejou. Há também o invejoso burguês. É aquele que cruza os braços, acomoda-se no seu sofá e faz da maledicência um objectivo de vida. Inveja a coragem que não tem e o sucesso que jamais terá, simplesmente porque nada fez ou fará por e para isso. Este invejoso burguês é um claro obstáculo ao progresso. Muitos sobrevivem à frente de instituições públicas, obstaculizando as iniciativas dos outros. São uma raça temível para aqueles que querem concretizar projectos. Envelhecem com um recalcado auto-desprezo que pode dar para várias direcções: continuarem teimosamente a investir na sua sina de empecilhos ou, muito raramente, consciencializando-se da inutilidade que foram durante a vida, procurarem remediar o tempo que desperdiçaram a fazer a vida negra aos que foram alvo da sua inveja. Todos estes géneros de invejosos indicam uma coisa: a riqueza do invejado. Se alguém é invejado é porque merece. É porque atingiu um nível de qualidade que é apetecível e desejável. O invejado deve sentir-se honrado por ser alvo da inveja dos outros. Mas que essa honra não se transforme em vaidade. Porque, quando isso acontece, amiúde o invejado se transforma num outro tipo de invejoso: o invejoso mimado. Pior que este, só mesmo o ressaibiado. Trata-se daquele que resulta da confluência de todos os outros.
Agosto de 2005
posted by hmbf at 14:07 6 comments
Com amor,
Publicado por: hmbf às outubro 29, 2006 05:35 PM